Mercado se alterna entre quem vê demanda aumentar a inflação e gerar alta dos juros e quem aposta na estabilidade.
O ritmo de aquecimento da economia brasileira neste início de ano – que pode ser medido tanto pelo uso da capacidade instalada da indústria quanto pelos índices de preços – está no centro das discussões dos analistas sobre os próximos passos da política monetária do Banco Central (BC). Os integrantes do Comitê de Política Monetária (Copom) reúnem-se na próxima semana (nos dias 16 e 17) para decidir sobre o rumo da taxa básica de juros (Selic), desta vez em um ambiente pós-crise e já levando em conta a realização das eleições.
Como o cenário envolve diversas variáveis, há divergências entre os analistas em relação às apostas para a Selic. Os que veem o risco de a demanda elevar a inflação estimam alta de 0,5 ponto percentual na taxa básica, que hoje está em 8,75% ao ano mas há quem trabalhe com a projeção de aumento mais brando ou mesmo de estabilidade.
Inflação – O Copom, por sua vez, parece já ter dado sinais do grau de importância que a demanda tem sobre suas decisões. Na ata da última reunião, de janeiro, o comitê destacou estar cauteloso diante da possibilidade de a retomada econômica causar "pressões inflacionárias".
A inflação, de fato, apresentou tendência ascendente no primeiro bimestre do ano. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) – indicador calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que serve de base para o sistema de metas – acumulou alta de 1,54% nos primeiros dois meses de 2010, ante variação de 1,03% em igual período do ano passado. Alguns analistas atribuem o avanço a fatores sazonais, mas outros já enxergam pressão de demanda, que poderia justificar aperto monetário neste mês.
O diretor do Instituto de Economia Gastão Vidigal (IEGV), da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Marcel Solimeo, está no grupo dos que observam pressões sazonais. "A alta de janeiro e fevereiro não representa aquecimento anormal da economia. Por isso, não deve determinar aumento do juro", destaca.
O diretor do Grupo de Análise e Previsões (GAP) da Diretoria de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Dimac/Ipea), João Sicsú, concorda com essa avaliação. "Não tem sentido pensar em elevar a Selic agora porque a inflação não dá qualquer sinal de descontrole. O avanço dos primeiros meses de 2010 está relacionado apenas a itens sazonais, como transporte público, matrículas e material escolares, e isolados, como o reajuste do açúcar", completa.
Os dois especialistas lembram ainda da recente ação do BC para limitar eventual aquecimento exagerado da economia. No fim de fevereiro, a autoridade monetária voltou a elevar os percentuais de depósitos compulsórios dos bancos, revertendo medida que havia sido adotada em 2009 para ajudar o País a enfrentar a crise. A decisão deve tirar aproximadamente R$ 71 bilhões da economia. Iniciativas similares tomadas agora afastariam, na avaliação de Solimeo e Sicsú, a necessidade de elevar os juros para barrar uma expansão desenfreada do consumo que pudesse ameaçar a inflação.
Indústria – Já o professor da Trevisan Escola de Negócios Alcides Leite associa a discussão sobre os juros à utilização da capacidade instalada da indústria brasileira. Na sua opinião, quando esse indicador chegar ao nível anterior à crise financeira internacional (perto de 87%), o Copom vai elevar a Selic. De acordo com dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), entre dezembro de 2009 e janeiro passado o uso da capacidade instalada ficou em 81,4% (leia mais sobre o assunto na página E 3). "Ainda há um espaço em relação ao índice anterior à crise, mas acredito que o Copom deve decidir agora em março elevar o juro básico para controlar o aquecimento da economia. É preciso lembrar que já até faltam profissionais em algumas áreas", afirma Leite, acrescentando que o BC poderia também elevar as alíquotas dos compulsórios como medida adicional.
Para o especialista em macroeconomia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP) Fábio Kanczuk, o Copom já poderia ter iniciado o ciclo de aperto monetário há algum tempo, de maneira gradual.
"Essa decisão do BC de esperar para ver o que aconteceria no início de 2010 deve gerar uma elevação mais forte da Selic", diz Kanczuk, que aposta em alta de 0,5 ponto percentual da taxa na próxima semana.
Há divergências, mas os especialistas têm opinião parecida em relação a um aspecto: eles não veem interferências políticas nas decisões do Copom, apesar de o debate ser dominado pelas eleições majoritárias e de recentes declarações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, defendendo o crescimento econômico. |